E assim, meio de repente, já se vão oito meses depois do meu transplante alogênico de medula óssea. Confesso que não tinha feito planos para 2017, pois considerava realisticamente uma sobrevida pequena ao meu diagnóstico de Leucemia Primária de Células Plasmáticas (quem é do ramo sabe...)
Mas vivo, sobrevivo, e acho que pode ser importante compartilhar esta vivência tão rara. Para vocês terem uma idéia, dos cerca de 1600 TMOs capitaneados desde há três décadas pelo Dr. Pasquini, em Curitiba, apenas seis tinham a "minha" Leuka. E não, não perguntei como eles se saíram. Se tem uma coisa que aprendi com meu câncer é a singularidade de cada pessoa, sua doença, seu corpo e seu espírito. Hoje não me comparo com ninguém e evito comparar as pessoas entre si. Claro que existem estudos e estatísticas que nos ajudam a compreender esses fenômenos, mas eles também nos reduzem barbaramente.
Uma consideração muito minha me impediu de continuar escrevendo o blog. Pensava eu, em breve morrerei e não colocarei o ponto final na história, e as pessoas que porventura lerem meu blog acompanharão uma agonia. Mas agora vejo que, com a Leuka ou sem a Leuka, corro o risco de não colocar, mesmo, o tal ponto final. E que isto não importa, a vida não é um livro.
Durante estes quase um ano e meio desde o meu diagnóstico procurei me preparar, tolamente, para a minha morte próxima. Desde coisas bobas como que roupa colocar para a cremação até outras mais sérias, como avaliar minha situação financeira e o testamento para o meu filho. Oliver Sacks, o grande neurologista morto após 10 anos desde seu diagnóstico de câncer, afirmava que este diagnóstico nos dá a chance de nos prepararmos e de prepararmos as pessoas que amamos, seja qual for o desfecho. E assim é. Mas não me preparei tão bem para sobreviver ao câncer, e estou tendo que fazer isto agora.
Desta forma, enquanto ainda estão vivas minhas lembranças, vou tentar registrá-las em benefício de outros pacientes, e, principalmente, em meu benefício. A Leuka está inativa desde o TMO, e assim já posso me considerar uma sobrevivente. Como disse a Ana Beatriz, "minha"médica, há uma nuvem cinzenta sobre a nossa cabeça, e a qualquer momento pode chover. A diferença entre os sobreviventes de câncer e os outros mortais é que nós, todos os dias, consultamos nossa nuvem. Será que vai chover?
