Nesta semana meu barquinho andou soçobrando. Comecei a reunir informações sobre os possíveis futuros tratamentos e por uma fraqueza momentânea optei por me fixar mais nos riscos e perigos que nos benefícios. Vocês podem imaginar como fiquei no meu barquinho imaginado pedras e corredeiras à frente. Sei que estes momentos fazem parte, mas desejo voltar ao curso de renúncia e aceitação o quanto antes, deixando para contornar os perigos no momento certo. Este exercício terá que ser constante!!!
Nesta hora, amigos. De todas as formas e por todas as vias: Whats App, telefonemas, visitas.
E ontem à noite vieram aqui em casa a Simone Keisen e a Ana Maria, da minha sangha, para fazermos uma sopa como a que fazíamos no Templo. Depois tento dar a receita (capenga, pois a Simone é que é a artista da culinária zen). Resultado: ri muito, tomei uma sopa de legumes deliciosa como há muito não tomava, apreciando cada colherada como um manjar dos deuses.
Sopa de Legumes do Templo Toguetsu
Legumes variados: abóbora, mandioquinha, batata, cenoura
Refogar bastante cebola e alho. Refogar os legumes até estarem meio cozidos. Colocar água o suficiente para cozinhar até o ponto de bater no liquidificador com um pedaço de gengibre. A sopa deve ficar cremosa e perfumada.
The winter is almost gone
"A questão da vida e da morte é a mais importante de todas e o tempo passa rapidamente.
Não desperdice sua vida em vão. " Mestre Dogen - Sec. XIII
domingo, 20 de setembro de 2015
domingo, 13 de setembro de 2015
Para meus amigos: O que é ser especial
Logo no começo da minha travessia, quando o diagnóstico de Leucemia se estabeleceu, comecei a receber de todos os meus amigos, próximos e não tão próximos, uma corrente de carinho e energia muito forte. Cada um `a sua maneira e dentro das suas possibilidades. Mas o fato é que ser o centro de tanta atenção, carinho e energia boa é um fato muito marcante na minha vida. Quase chego a agradecer à Leuka por me ter possibilitado este privilégio.
Também lá no comecinho criei um grupo no WhatsApp chamado "The Watch", em homenagem à guarda da Muralha (com no Game of Thrones) , atribuindo a um grupo menor de amigos uma função de alta responsabilidade: ajudar a guardar a minha muralha, tão frágil e esburacada, do inverno que está chegando. A eles também caberia serem meus "corvos", ou seja, manteriam informadas pessoas de todos os meus círculos, o que seria muito difícil para mim.
Eles não só aceitaram a missão como se encontraram virtualmente, pessoas que não se conheciam até então, e estão formando uma nova rede. E hoje resolvemos nos encontrar pessoalmente, na casa generosa da Laiz, do Otto e da princesa Sofia. Apenas uma parte da guarda da Muralha pode comparecer, mas isto não diminui minha gratidão a todos eles. Sim, vocês, meus queridos guardiães.
Só posso desejar ter mais dias bons, dias em que tenha a possibilidade de me reunir com vocês para nada, apenas para usufruirmos da nossa amizade e da nossa companhia. Ser especial, para mim, é merecer o afeto de vocês. Muito obrigada.
Também lá no comecinho criei um grupo no WhatsApp chamado "The Watch", em homenagem à guarda da Muralha (com no Game of Thrones) , atribuindo a um grupo menor de amigos uma função de alta responsabilidade: ajudar a guardar a minha muralha, tão frágil e esburacada, do inverno que está chegando. A eles também caberia serem meus "corvos", ou seja, manteriam informadas pessoas de todos os meus círculos, o que seria muito difícil para mim.
Eles não só aceitaram a missão como se encontraram virtualmente, pessoas que não se conheciam até então, e estão formando uma nova rede. E hoje resolvemos nos encontrar pessoalmente, na casa generosa da Laiz, do Otto e da princesa Sofia. Apenas uma parte da guarda da Muralha pode comparecer, mas isto não diminui minha gratidão a todos eles. Sim, vocês, meus queridos guardiães.
Só posso desejar ter mais dias bons, dias em que tenha a possibilidade de me reunir com vocês para nada, apenas para usufruirmos da nossa amizade e da nossa companhia. Ser especial, para mim, é merecer o afeto de vocês. Muito obrigada.
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
Para Vaninho: "We will always have Paris..."
Conheci Paris um tanto sem querer, pois meu amigo Evanio Alves iria lançar em Paris e Lyon o livro "Les Divas Européennes au Brésil", resolveu alugar uma casa pelo AirBnb e me levou junto. Passamos 15 dias maravilhosos na casa da Françoise, no 13ème. Uma vizinhança de classe média, em um bairro que concentra imigrantes asiáticos. Ele passava os dias "fuçando" livrarias e eu, flanando por Paris, e de vez em quando nos encontrávamos para passeios em comum. Foi quando percebi que Paris seria para sempre a cidade do meu coração, onde a luz é mais bonita e os dias são cheios de joie de vivre, a alegria de viver.
Fiz então, comigo mesma, meu "Pacto Danusa Leão". Ela conta em um dos seus livros que faz questão de passar um mês por ano em Paris. Eu tento passar 15 dias, e assim tenho feito. Na minha última viagem a Paris, em junho último, eu já estava doente, mas não sabia. Fiz tudo o que eu me tinha proposto, mas com uma dose extra de esforço, o que creditei à velhice que certamente já estava se instalando rsrsrs
Agora, não faço mais planos concretos de voltar a Paris, mas sonho. Sonho que voltarei com o Vaninho e que levarei meu buldogue francês, o Marlon Brando, e que passearemos às margens do Sena procurando livros. Sonho que voltaremos ao nosso restaurante, o Sarah Bernhardt, e que voltaremos às bancas do Marché aux Puces de Clingnancourt, com um contêiner já contratado para trazer a nossa bagagem... Sonho...Enquanto isto, assisto a todos os filmes passados em Paris que me caem às mãos. Assim vou matando saudades. Hoje foi a vez de "My Old Lady', com um Kevin Kline surpreendente. Ele herda um apartamento em Paris, pelo sistema viager, e precisa pagar um aluguel à antiga moradora enquanto ela viver. Sendo que as mulheres francesas vivem muito...O prédio no Marais é maravilhoso e lembra em tudo a casa da Françoise. O enredo é surpreendente, baseado em uma peça de teatro escrita pelo diretor do filme. Recomendo.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
UFMG 85: 30 Anos esta Noite

No filme de Louis Malle, um homem angustiado e perdido deixava um hospital, onde fazia um tratamento contra o alcoolismo, e percorria bares de Paris à procura de velhos amigos, em uma busca de si mesmo na reconstituição do passado.
Lembrei-me imediatamente do filme ao pensar em postar sobre o encontro de 30 anos de formados de minha turma da Medicina, comemorado neste final de semana em Tiradentes, e ao qual não poderei comparecer.
Na verdade, meus colegas estarão relembrando mais de 30 anos de convivência, dos quais os mais emocionantes terão sido sem dúvida os 6 anos do curso médico. Os anos de formação são fundamentais para os adultos e profissionais que somos, e a minha turma da Medicina, especialmente minha ˜Turma de 10", teve e tem um papel fundamental na minha vida.
A tarefa de reviver mais de 30 anos em um final de semana é sem dúvida pouco exequível. Mas com certeza bastarão pequenos flashes trazidos pela frase "lembra quando"...Já posso ouvir as risadas que se seguirão. E é isso que desejo aos meus colegas: as melhores lembranças de alguns dos melhores anos que vivemos, e que sejam capazes de trazer à tona o melhor de nós, na figura daqueles jovens que queriam tanto aprender, que queriam abraçar esta missão tão nobre e difícil e ainda ser os melhores médicos que pudessem ser. A eles, a quem fomos, nosso brinde e nosso muito obrigado.
Como no filme de Malle, são os outros que nos ajudam a nos lembrarmos de nós mesmos.
Como no filme de Malle, são os outros que nos ajudam a nos lembrarmos de nós mesmos.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Para Tokuda San: Gasshô!
Ontem vivi mais um momento muito especial: meu primeiro encontro com Tokuda San, ou Mestre Tokuda (vejam um pouco da enorme importância dele para o zen no Brasil na nota abaixo deste post).Mestre Tokuda é especialista em Medicina Búdica, baseada na Tradicional Chinesa, e tive a oportunidade rara de ser examinada por ele. Não devo dar detalhes desta consulta, mas basta dizer do privilégio de receber de um Mestre deste porte toda uma atenção especial ao meu momento físico e espiritual ao mesmo tempo. Como dizemos no zen, uma reverência com as mãos em prece. Gasshô, Tokuda San. Gashô, Simone Keisen San, por mais esta dádiva do zen em minha vida.
Nota: O monge Tokuda nasceu em Hokkaido, norte do Japão, em 1938. Diplomou-se em filosofia Budista pela Universidade de Komazawa, em Tóquio, em 1963. Em 1968 veio da Escola Soto Zen para o Brasil como missionário para a América Latina, com indicação do Mestre Shingu Roshi (primeiro superior para a América Latina). Em 1981, o monge Tokuda fundou o Instituto de Medicina Búdica Nonindô em Belo Horizonte, Minas Gerais. Em 1984 fundou o Mosteiro Zen Pico de Raios e o Centro de Cultura Oriente-Ocidente na cidade de Ouro Preto, também em Minas Gerais. Em 1993 fundou o Centro Zen do Planalto, em Brasília. Em 1994 o Mosteiro Serra do Trovão em Lavras Novas em Minas Gerais. Paralelamente, desde 1985 mantém grupos de prática Zen na Europa, principalmente na França, além de ministrar cursos e palestras sobre assuntos variados, como Budismo, Zen, Como Formar Lideranças (assunto de um próximo livro) e Medicina Búdica por todo o mundo. Em 1995 fundou a Association Mahamuni de Paris. Em 2000 fundou o Mosteiro Eitai-ji, situado nos Alpes da Haute Provence, perto de Nice, no sul da França. Em 2001 fundou o Mosteiro Serra dos Pirineus (Eisho-ji) e outros projetos educacionais e ambientais em Pirenópolis, Goiás, com nascentes de água pura, que abrigará um guia ecológico para o próximo milênio, uma escola de medicina Búdica e um Mosteiro projetado para se integrar com o ambiente do cerrado e um Spa Zen.Visite também o site tokuda-igarashi.com.
Fonte: Mosteiro Zen Horyu-Zan Eisho-Ji de Pirenópolis, Go http://eishoji.com.br/mestre-tokuda/
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
Para a França: Minha pátria adotiva
Como saber se é coisa de outras vidas ou desta vida? Vaninho diria que talvez eu tenha sido Maria Antonieta. Eu preferiria Joana D'Arc...O fato é que amo a França, especialmente Paris. Amor de verdade, daqueles em que a gente ama mesmo apesar (ou por causa) dos defeitos do ser amado
Eu tinha feito um "compromisso", inspirado pela Danuza Leão em uma de suas autobiografias, de ir a Paris todos os anos. E vinha cumprindo. Mas agora não faço mais planos, apenas elaboro sonhos. Então vamos lá: sonho que ainda estarei em Paris com meu cachorro Marlon Brando (sim, aquele do "Último Tango"), não por acaso um buldogue francês. Estaremos passeando pelas margem esquerda do Sena, rumo à Île de Saint-Louis (onde estaremos hospedados, naturalmente) e daremos nossa passadinha básica pela Shakespeare and Company.
Sonhar, às vezes, é melhor que viver. Sintam-se convidados.
PS: Descolei o filme Ratatouille para treinar meu francês, daí este post. Existe em Paris um interessante circuito do filme, o qual ainda não fiz: http://www.conexaoparis.com.br/2007/08/11/o-circuito-do-filme-ratatouille-em-paris/. A loja Aurouze, no Les Halles, vende produtos para exterminação de ratos e outros animais "nocivos". A vitrine mostra ratos e outros bichos empalhados suspensos em barras de ferro. O proprietário assinou contrato com os produtores para que a loja pudesse ser reproduzida no filme e hoje ela virou ponto principal do circuito.
Aurouze – 8 rue des Halles 75001 Paris
domingo, 30 de agosto de 2015
Para Suzane: As pontes que nos unem
Algumas vezes já defini a Leuka como a "mulher do poste", aquela que traz a pessoa amada em sete dias...Uma das pessoas amadas que a Leuka me trouxe foi a Suzane. Depois de décadas de amizade, nos afastamos meio sem saber por quê. Coisa das nossas vidas desatentas ao essencial, aquele invisível para os olhos.
E hoje ela me fez uma visita agradabilíssima, a qual passamos, como antigamente, apenas pelo prazer da companhia. E, claro, assistimos de novo "As Pontes de Madison", com direito a lágrimas e suspiros pelo Robert Kincaid/Clint Eastwood. Quem nunca...
Em homenagem a nós, posto a música tema do filme, Doe Eyes. Autoria do próprio Clint. Sorry, boys...
Para Oliver Sacks: Obrigada por tudo e descanse em paz
Oliver Sacks, o neurologista e autor aclamado que escreveu best-sellers como : "O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu", usando as condições médicas de seus pacientes como pontos de partida para meditações sobre a consciência e a condição humanas, acaba de falecer neste domingo em sua casa em Nova Iorque. Ele tinha 82 anos e morreu de câncer. Como médico e como escritor, Dr. Sacks atingiu um nível de popularidade bastante incomum entre cientistas. Mais de um milhão de cópias de seus livros foram publicadas nos Estados Unidos e parte do seu trabalho foi adaptado para o teatro e para o cinema.
Em fevereiro último eu ainda nem fazia idéia de que estaria também doente hoje, mas fiquei muito impactada por seu artigo no New York Times "My Own Life: Oliver Sacks on Learning He Has Terminal Cancer". Seu artigo é muito inspirador, e nele há esta frase: "Só depende de mim escolher como viver os meses que me restam. Eu devo vive-los da maneira mais rica, profunda, mais produtiva que eu puder."Ele cita o filósofo David Hume, que, ao se descobrir com uma doença grave aos 65 anos, escreveu uma pequena autobiografia em um único dia de abril de 1776, intitulada "My Own Life": "Eu agora encaro uma dissolução acelerada, na qual sofro muito pouca dor , e, o que é mais estranho, apesar do declínio físico, não sofri um momento de abatimento do meu espírito. I possuo o mesmo ardor para o estudo, e a mesma jovialidade na companhia das pessoas." "É difícil estar-se mais desapegado da vida do que estou neste momento."
Continua Sacks: "Ao longo dos últimos dias, eu tenho sido capaz de ver a minha própria vida como se de uma grande altitude, um tipo de paisagem, e sou tomado um profundo senso de conexão entre as suas partes. Contudo, isto não quer dizer que eu sinto que minha vida já tenha finalizado. Ao contrário, eu me sinto intensamente vivo, e eu desejo e espero, no tempo restante, aprofundar minhas amizades, dizer adeus àqueles que amo, escrever mais, viajar se tiver forças, e atingir níveis mais altos de compreensão e insight." Amém.
Obrigada por sua inspiração, descanse em paz, Oliver.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Para Ulisses: Nosso menino em Lissshhhboa
Como este blog precisa ser escrito com o coração, dias sem grandes emoções não "rendem"assunto. E eis que hj me deparei com a foto do Bernardo, filho do Ulisses e da Bruna, na Praça do Príncipe Real, em Lisboa.
Outro dia me surpreendi com a Festa de 15 anos do Lab Rede e foi aí que nossa amizade começou, desenvolvendo um projeto a "seis"mãos, juntamente com o Evandro. Era um sonho, nosso idealismo, criar um laboratório simples mas bonito, moderno mas igualitário em seus conceitos. Bem afinado com os idealistas de esquerda que fomos, quando ainda se podia sonhar com igualdade e fraternidade no Brasil.
Muitas e muitas águas depois, veio Ulisses a minha casa e fez um projeto de barras de apoio e de suportes de sabão e de álcool gel, muito necessários nesta minha nova etapa. E não só projetou, como foi à loja e comprou barras e suportes bonitos, sem cara de hospital, conforme a minha encomenda... Êta cliente chata... Não satisfeito, não aceitou reembolso e zarpou para Lisboa com a família para quatro anos de doutorado.
Desta forma, só me resta ficar aqui acompanhando de longe o seu enorme talento e sua rara inteligência dotada de coração, assistindo o Bernardo crescer e torcendo para que o Brasil mereça a sua volta. Ora poish poish, menino Ulisses, cá tens uma amiga....
![]() |
| Foto de Lisboa postada pelo Ulisses em seu ˜Caralivro" |
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Enjoy Yourself (It's Later Than You Think)
Todos dizem Eu te Amo é um Woody Allen "menor"de 1996. Um musical estranho com não cantores no qual a musica irrompe sem quê nem para quê. Como em todo bom musical, aliás. Um clássico.
domingo, 23 de agosto de 2015
Jeitos (não muito espertos) de morrer
Dicas Dazamigas: Higiene Oral
Minha dentista Soraya é um anjo que me acompanha há anos, e cuida praticamente de toda a família. Um tesouro. Ao saber do meu diagnóstico e da QT, a procurei para agendarmos uma revisão e recebi dicas preciosas, as quais compartilho.
Vale a pena usar uma escova elétrica com uma cabeça pequena, redonda, dente por dente, a qual permite um pouco mais de controle para não machucar a gengiva. Pode também ser usada uma escova normal de cabeça pequena e cerdas macias.
O creme dental deve ser mais suave, do tipo que protege o esmalte.
O enxaguante bucal deve ser sem álcool, com ciclo-hexidina, duas vezes ao dia. Se escovar antes do bochecho, esperar meia hora. Seu uso contínuo pode alterar o paladar.
Nota: A Soraya me passou os nomes das marcas comerciais e o endereço de uma loja virtual especializada, localizada fisicamente em Belo Horizonte. Quem tiver interesse pode me solicitar estas informações confidencialmente.
Dicas Dazamigas: Lenços
Sim, vem aí uma QT e uma careca. Minha sorte é que no zen a careca faz parte do uniforme. Isto não quer dizer que o uso de um lencinho estratégico para proteger ou enfeitar a dita cuja não seja uma boa idéia.
Aproveito para divulgar a maravilhosa contribuição da Flávia Flores: quimioterapiaebeleza.com.br
GoT: All men must die (Atenção - spoilers)
Durante minha internação para diagnóstico e início do tratamento precisei criar um canal para me comunicar com meu círculo de apoio imediato naquele momento. A ferramenta óbvia era o WhatsApp. Mas o grupo criado teve uma inspiração genial, provavelmente com a participação especial do corticóide em altas doses. Criei um grupo baseado em Game of Thrones (GoT para os iniciados).Desta forma, eu seria ninguém menos que a minha personagem feminina (feminista?) favorita: Arya Stark. Sozinha, enfrentando o desconhecido com muita valentia e uma dose de rebeldia e uma espadinha (o zen).
Contudo, eu estaria na Muralha, no limite com os perigos do Inverno que vem chegando. E aí ficou bastante óbvio que meu filho Victor estava destinado a ser o Jon Snow (meu irmão bastardo), o mais lindo, puro e corajoso defensor da Muralha. Com os melhores corte de cabelo e figurino também, óbvio...
A partir daí, a rede que me acompanha mais de perto compõe o Grupo "The Watch"( algo como "A Ronda") e tem a missão de alimentar o grupo com motivos diários de gargalhadas. Alguns deles também estão encarregados de serem meus Ravens (Corvos Correio) para levarem notícias a outras pessoas do nosso círculo extendido.
Qual não foi minha surpresa ao constatar que a maioria dos membros do Grupo jamais havia assistido nem ouvido falar de GoT. O que equivale, mal comparando, a morar em Stratford-upon-Avon no Século XVII e nunca ter ouvido falar de Shakespeare...Assim, estou tendo que atuar pedagogicamente, com o valioso auxílio de alguns poucos GoT maníacos, como a Cleu e o LO.
E temos, logicamente, a adoção do tema "All men must die". Eu apenas acrescentei que, se todos os homens devem morrer, é que, primeiramente, todos os homens devem viver.
sábado, 22 de agosto de 2015
Um filme: Cake (2014)
Zapear é sempre um risco. Ontem estava buscando algum filme no Net Now, depois de um longo jejum, e topei com "Cake". Tinha uma vaga recordação de que à época do lançamento o desempenho de Jennifer Aniston foi elogiado, e ela foi indicada ao Globo de Ouro (Melhor Atriz Dramática).
Trata-se de um filme acima da média, e que discute questões delicadas que envolvem uma mulher portadora de sequelas na coluna, que causam dor crônica. Mexeu comigo. Recomendo.
Produção: Jennifer Aniston
Direção: Daniel Barnz
Roteiro: Patrick Tobin
Claire Bennett - Jennifer Aniston
Silvana - Adriana Barraza
Nina Collins - Anna Kendrick
Roy Collins - Sam Worthington
Para todos: Leonard Cohen - Hallelujah (Andrea Motis e Joan Chamorro)
Deu para notar que "Hallelujah" do Leonard Cohen é uma das minhas músicas favoritas.
Ela tem "n"versões e cada um que a canta tenta imprimir sua marca:
o próprio Cohen, KD.Lang, Jeff Buckley e outros.
Mas esta é a minha versão favorita e é a música que toca no meu despertador pela manhã.
Aleluia!!!
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Para Áurea: A Repartição dos Pães - Clarice Lispector
A Repartição dos Pães
Clarice Lispector
Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado,ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.
Pão é amor entre estranhos.
(Texto extraído do livro "Laços de família", Ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1991.
Foto da capa do livro da Julia Ponsonby do Schumacher College, encontrado na Amazon, inclusive para Kindle.)
Receita da Dani: Overnight Oatmeal
Sugestão para o café da manhã. Os filhinhos da Dani e do Hyllo adoram.
Vc vai precisar de:
- 1/4 xíc de aveia, granola ou flocos de milho
- 1/3 xíc de leite (semidesnatado por exemplo)
- 1/4 xíc de iogurte grego natural, sem sabor
- 2 col chá de sementes de chia
- 1/4 de col sopa de essência de baunilha
- 1 col sopa de mel ou a gosto
- 1/3 xíc de fruta fresca picada
Na noite anterior, misturar tudo em um pote de vidro com tampa.
Agitar e deixar na geladeira até a hora de consumir.
Pode ser enviado na merenda escolar ou levado para um pique nique...
Vc vai precisar de:
- 1/4 xíc de aveia, granola ou flocos de milho
- 1/3 xíc de leite (semidesnatado por exemplo)
- 1/4 xíc de iogurte grego natural, sem sabor
- 2 col chá de sementes de chia
- 1/4 de col sopa de essência de baunilha
- 1 col sopa de mel ou a gosto
- 1/3 xíc de fruta fresca picada
Na noite anterior, misturar tudo em um pote de vidro com tampa.
Agitar e deixar na geladeira até a hora de consumir.
Pode ser enviado na merenda escolar ou levado para um pique nique...
Minha receita levou aveia e banana. Delícia.
Para todos: Leonard Cohen - Hallelujah (K.D.Lang)
"Hallelujah" - Leonard Cohen*
Well I heard there was a secret chord
That David played and it pleased the Lord
But you don't really care for music, do you?
Well it goes like this:
The fourth, the fifth, the minor fall and the major lift
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah...
Well your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew ya
She tied you to her kitchen chair
She broke your throne and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah...
Baby I've been here before
I've seen this room and I've walked this floor (you know)
I used to live alone before I knew ya
And I've seen your flag on the marble arch
And love is not a victory march
It's a cold and it's a broken Hallelujah
Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah, Hallelujah...
Maybe there's a God above
But all I've ever learned from love
Was how to shoot somebody who outdrew ya
And it's not a cry that you hear at night
It's not somebody who's seen the light
It's a cold and it's a broken Hallelujah
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah...
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah...
Hallelujah, hallelujah, hallelujah
Hallelujah, hallelujah
* Leonard Cohen: Músico e compositor canadense.
Monge zen ordenado com o nome de Dharma Jican ("O Silencioso")
Para Dani: Extrato caseiro de baunilha
Um dos melhores blogs que sigo é o Prato Fundo, do Victor Hugo. O forte dele é a pâtisserie, mas ele é mestre em testar receitas. Como ele é farmacêutico como vc, Dani, a coisa toda tem medida exatas e POPs reprodutíveis.
Eu testei uma das propostas dele: fazer o próprio Extrato de Baunilha em casa. É bem simples e fácil, apenas requer uma coisa: tempo e paciência. E um ingrediente chave: uma fava de baunilha, nova ou já usada.
Diz o VH: "A quantidade de fava por líquido é: quanto mais, melhor. Terá um extrato mais forte e presente. Mas a gente sabe que o preço do ingrediente é um obstáculo. Caso fosse um extrato industrial seguindo as normas do FDA (U.S. Food and Drug Administration), deve ter 100g fava de baunilha para cada 1L de líquido (acima 35% álcool). Medidas convertidas para o sistema métrico. A maneira que faço é a mesma fazem anos depois de ler muitas dicas, mas que no final querem dizer a mesma coisa.
QUAL LÍQUIDO USAR? Uso: vodka (30-35% álcool). De modo geral, é possível usar qualquer bebida com alto teor alcóolico. Cachaça, rum, álcool de cereais. Só lembrar que alguns destilados tem sabor também que podem atrapalhar ou contribuir, depende do que você quer no final. Não uso vodka cara, como quero apenas o álcool dela não precisa ser tudo isso. O preço girando até uns R$15-20 é aceitável, mais barato do que isso a qualidade da destilação pode ser bem baixa. Algumas pessoas já usaram álcool de cereais, mas na minha região é difícil de encontrar. Transfiro para uma garrafa ou frasco de vidro bem limpo com tampa. Lave muito bem, enxágue bastante. Como a gente é precavido neurótico passo água quente também. Vamos combinar que se estragar é uma dor no coração e no bolso, afinal, como já disse baunilha é cara.
COMO COLOCAR A BAUNILHA? Depois é hora de colocar a fava de baunilha. Você pode cortar ao meio (no sentido do comprimento) como se fosse usar e colocar assim. Raspando ou não as sementes. E cobrir com vodka, as favas devem ficar submersas. Outra opção é cortas as pontas e colocar a fava inteira também. Não precisa ser apenas favas novas. Como tem um aroma bem forte, mesmo depois de usadas ainda dá para usar. Só lavar para remover eventuais resíduos da preparação anterior, passar um pouco de vodka e colocar no extrato. Parece a quintessência da pobreza, mas todo mundo gastronômico reusa. Esse reuso acabo colocando nos extrato mais jovens, caso estragar a perda será menor. Tenho extratos de anos e anos, é preciso deixar descansar por bastante tempo. Quanto mais tempo, melhor. Mas por volta de uns 3-4 meses já daria para usar. Claro, é possível usar antes, mas o potencial aromático é menor também.
ARMAZENAMENTO? O ideal é usar vidros escuros, mas como podem ver pelas fotos não uso (achei para comprar só em São Paulo, lá na Rua Silveira Martins). Então, guarde em um local escuro, fresco e livre de odores fortes. Como tem álcool e água, a vodka pode acabar absorvendo esses odores também prejudicando o extrato. De tempos em tempos, é bom agitar os vidros e dar aquela conferida para ver se está tudo bem. E uma sugestão de uso: garrafinhas de 50mL e coloquei parte da fava usada dentro também para deixar um pouco mais forte."
Diz o VH: "A quantidade de fava por líquido é: quanto mais, melhor. Terá um extrato mais forte e presente. Mas a gente sabe que o preço do ingrediente é um obstáculo. Caso fosse um extrato industrial seguindo as normas do FDA (U.S. Food and Drug Administration), deve ter 100g fava de baunilha para cada 1L de líquido (acima 35% álcool). Medidas convertidas para o sistema métrico. A maneira que faço é a mesma fazem anos depois de ler muitas dicas, mas que no final querem dizer a mesma coisa.
QUAL LÍQUIDO USAR? Uso: vodka (30-35% álcool). De modo geral, é possível usar qualquer bebida com alto teor alcóolico. Cachaça, rum, álcool de cereais. Só lembrar que alguns destilados tem sabor também que podem atrapalhar ou contribuir, depende do que você quer no final. Não uso vodka cara, como quero apenas o álcool dela não precisa ser tudo isso. O preço girando até uns R$15-20 é aceitável, mais barato do que isso a qualidade da destilação pode ser bem baixa. Algumas pessoas já usaram álcool de cereais, mas na minha região é difícil de encontrar. Transfiro para uma garrafa ou frasco de vidro bem limpo com tampa. Lave muito bem, enxágue bastante. Como a gente é precavido neurótico passo água quente também. Vamos combinar que se estragar é uma dor no coração e no bolso, afinal, como já disse baunilha é cara.
COMO COLOCAR A BAUNILHA? Depois é hora de colocar a fava de baunilha. Você pode cortar ao meio (no sentido do comprimento) como se fosse usar e colocar assim. Raspando ou não as sementes. E cobrir com vodka, as favas devem ficar submersas. Outra opção é cortas as pontas e colocar a fava inteira também. Não precisa ser apenas favas novas. Como tem um aroma bem forte, mesmo depois de usadas ainda dá para usar. Só lavar para remover eventuais resíduos da preparação anterior, passar um pouco de vodka e colocar no extrato. Parece a quintessência da pobreza, mas todo mundo gastronômico reusa. Esse reuso acabo colocando nos extrato mais jovens, caso estragar a perda será menor. Tenho extratos de anos e anos, é preciso deixar descansar por bastante tempo. Quanto mais tempo, melhor. Mas por volta de uns 3-4 meses já daria para usar. Claro, é possível usar antes, mas o potencial aromático é menor também.
ARMAZENAMENTO? O ideal é usar vidros escuros, mas como podem ver pelas fotos não uso (achei para comprar só em São Paulo, lá na Rua Silveira Martins). Então, guarde em um local escuro, fresco e livre de odores fortes. Como tem álcool e água, a vodka pode acabar absorvendo esses odores também prejudicando o extrato. De tempos em tempos, é bom agitar os vidros e dar aquela conferida para ver se está tudo bem. E uma sugestão de uso: garrafinhas de 50mL e coloquei parte da fava usada dentro também para deixar um pouco mais forte."
Para Sidney Farber: Parte 2
Farber completou sua residência médica em Patologia no final dos anos 20 e se tornou o primeiro Médico Patologista do Children's Hospital. Ele escreveu um brilhante estudo sobre a classificação de tumores pediátricos e um livro texto chamado "The Postmortem Examination", um clássico na sua área de Especialidade.
Em meados dos anos 30 ele havia conquistado o posto de " médico dos mortos", habitando os corredores mais obscuros do hospital, bem como a fama de eminente patologista. Contudo, o desejo de oferecer tratamento aos pacientes ainda o motivava. Nos porões de seu laboratório, no verão de 1947, Farber teve uma inspiração: ele escolheu, entre todos os tipos de cancer, voltar sua atenção exclusivamente para uma de suas variantes mais antigas e sem esperança: a leucemia em crianças.
Para compreender o cancer de uma forma global, ele raciocinou, seria necessário começar pela base da sua complexidade, seus fundamentos. E, a despeito de suas várias idiossincrasias, a leucemia tinha uma singularidade: podia ser mensurada. E toda Ciência começa com uma medição. Para compreender um fenômeno, um cientista precisa primeiramente descreve-lo. E para que a descrição seja objetiva, precisa medi-lo. Caso a oncologia pudesse ser convertida em uma ciência rigorosa, seria necessário quantificar o cancer - realizar sua medição por meio de um método confiável e reprodutível.
(Traduzido do livro "The Emperor of All Maladies", de Siddhartha Mukherjee, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2011. Siddhartha é médico oncologista e professor assistente da Universidade de Columbia e do CU/NYU Presbytarian Hospital. Suas pesquisas focam o desenvolvimento de novas drogas para cancer por meio do uso de inovações em métodos biológicos e moleculares.)
Continua...
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Para Sidney Farber: Parte 1
Sidney Farber nasceu em Buffalo, Nova Iorque, em 1903. Seu pai, Simon Farber, anteriormente um homem do mar na Polônia, havia imigrado para a América do Norte ao final do século XIX e trabalhava para uma companhia de seguros. A família vivia modestamente na porção leste da cidade em uma comunidade judaica um tanto insular, mas muito imbricada: lojistas, trabalhadores na indústria, livreiros e donos de armarinho. As crianças da família Farber eram constantemente estimuladas a buscarem a excelência acadêmica e falavam Yiddish em casa e Alemão ou Inglês fora dela. O patriarca trazia constantemente livros que eram deixados sobre a mesa de jantar e cada criança deveria selecionar e estudar um dos livros até dominar o tema e ser capaz de apresentá-lo aos demais.Sidney era o terceiro de quatorze filhos, e floresceu neste ambiente de altas aspirações. Na universidade de Buffalo estudou Biologia e Filosofia e graduou-se em 1923, enquanto tocava violino em casas de música para manter seus estudos superiores. Fluente em Alemão, fez seu treinamento médico em Heidelberg e Freiburg e, tendo sido considerado um aluno excepcional, foi aceito no segundo ano da Escola Médica de Harvard, em Boston. Com esta trajetória, Farber era considerado uma figura excêntrica na nova Escola. Seus colegas o achavam arrogante e insuportável, mas ele, forçado a aprender de novo temas que já havia dominado, sofria também, por sua vez. Ele era formal, preciso e meticuloso, engomado na aparência mas de presença marcante e carismática. Ele foi logo apelidado de "Sid do Jaquetão de Quatro Botões" devido ao seu costume de assistir às aulas formalmente vestido. Continua... (Traduzido do livro "The Emperor of All Maladies", de Siddhartha Mukherjee, vencedor do Prêmio Pulitzer de 2011. Siddhartha é médico oncologista e professor assistente da Universidade de Columbia e do CU/NYU Presbytarian Hospital. Suas pesquisas focam o desenvolvimento de novas drogas para cancer por meio do uso de inovações em métodos biológicos e moleculares.)
Para Leuka: Zona zen
Zona Zen
Rita Lee e Roberto de Carvalho
Enquanto o tempo vai passando
Eu fico
Loucamente séria
Quem me dera ser
E não ser
De repente tudo fica velho
Seriamente louco
Sobra pouco tempo
pra não sei o que
Saio da cama entro em coma
Mais pra zona que pra zen
Até parece que foi ontem
Saudade do futuro eu juro
Longe daqui
Aqui mesmo meu bem
Eternamente eterna
Zona zen
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Para Ingrid: Receita de Okayu, a papa de arroz dos deuses
Como alguns sabem, desde 2010 sou praticante do budismo (Escola Soto Zen, Japão). A maior parte do meu treinamento se deu através do coração da Monja Simone Keisen em seu Templo Toguetsu, em Coelhos (Itabirito). Eu tinha duas funções principais no Templo: auxiliar de Tenzô ("chef") e blogueira.Outro dia fizemos aqui em casa, eu e Keisen, a tradicional papa de arroz Okayu, a qual acompanhamos com o segredo mais bem guardado do Templo Toguetsu: a conserva dos Sete Deuses. A minha amiga Ingrid teve o privilégio de participar do repeteco noturno. Como ela gostou muito do prato, me lembrei de uma das minhas primeiras postagens no blog do Templo, justamente a receita de Okayu. Já a conserva é preciso obter da Simone...A Tenzô auxiliar nem sonha com a receita. Coisas do Zen.
"Quando cozinhar, não olhe as coisas comuns com um olhar ordinário, com sentimentos ou pensamentos ordinários. Com esta folha de legume que você tem em suas mãos construa uma esplêndida morada de Buda e faça com que um ínfimo grão de poeira proclame a lei. Dito de outra maneira, se você prepara um pobre caldo de ervas selvagens , que ele não lhe inspire nenhum sentimento de desgosto ou de desprezo, e se você elabora uma rica sopa cremosa, que seu coração não se encha de alegria. Onde não há apegos, como haveria hostilidade? Assim, quando lidar com uma matéria grosseira, não a trate sem considera;ao, seja tão diligente e tão atento a ela como se estivesse em presença de um objeto precioso. É importante que seu espírito não mude segundo a qualidade do objeto. Se seu espírito depende das coisas, é como se você mudasse de atitude e de linguagem de acordo com a qualidade das pessoas que você encontra. Um tal comportamento não é o de um homem que pratica o caminho."
Livro Tenzô Kyokun, Mestre Dôgen.
Para Paula e Wilson: New Orleans and the Tall, Dark Stranger
Fizemos certa feita uma viagem muito especial para um Congresso da AACC, em Nova Orleans (antes do Furacão Katrina). Não me recordo de ter gostado mais de uma cidade e de uma viagem.
Ao escutar Hugh Laurie, mais conhecido como o Dr. House da série homônima, apresentando ao vivo "St. James Infirmary"(algo como "No necrotério do Hosp. St. James") não pude deixar de me lembrar daquela viagem. E também da relação ao mesmo tempo irônica e poética da cidade de Nova Orleans com a morte: seus lindos cemitérios e seus cortejos fúnebres festivos ao som de jazz.
Aí vai a letra:
It was down by old Joe's barroom, on the corner of the square
They were serving drinks as usual, and the usual crowd was there
On my left stood Big Joe McKennedy, and his eyes were bloodshot red
And he turned his face to the people, these were the very words he said
I was down to St. James infirmary, I saw my baby there
She was stretched out on a long white table,
So sweet, cool and so fair
Let her go, let her go, God bless her
Wherever she may be
She may search this whole wide world over
Never find a sweeter man as me
When I die please bury me in my high top Stetson hat
Put a twenty dollar gold piece on my watch chain
The gang'll know I died standing pat
Let her go, let her go God bless her
Wherever she may be
She may search this wide world over
Never find a sweeter man as me
I want six crapshooters to be my pallbearers
Three pretty women to sing a song
Stick a jazz band on my hearse wagon
Raise hell as I stroll along
Let her go Let her go
God bless her
Wherever she may be
She may search this whole wide
World over
She'll never find a sweeter
Man as me
Songwriters: Mills, Irving
St James Infirmary lyrics © Sony/ATV Music Publishing LLC, Warner/Chappell Music, Inc., Universal Music Publishing Group
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Uma árvore, um livro, um filho ou um filhote
Diz a sabedoria popular que uma vida só é completa quando plantamos uma árvore, escrevemos um livro e temos um filho. Pessoalmente, acho este conceito um pouco duvidoso. Principalmente levando em conta os livros que aparecem nas listas de Best Sellers...Plantar árvore então é fácil demais. Até passarinho faz.
Já filho é diferente. Eu apenas mudaria o ditado popular para "criar bem um filho". Ter um filho não requer nenhuma habilidade especial.
No dia de ontem o Cassio, do meu grupo de apoio do WhatsApp, recebeu o Pedro ( a quem já está chamando de Pedrão...Freud explica....).
E eu recebi o Marlon Brando, bulldog francês do qual já tracei árvore genealógica e escolhi a futura namorada. Acho que estou "pior" do que o Cassio (se é que isto é possível...).
Bem-vindos Pedro e Marlon Brando. Se vcs não são a eternidade prometida, são a certeza de uma vida menos egoísta e mais alegre.
domingo, 16 de agosto de 2015
Para Marilene Melo: Por que o Pão de Queijo de Minas é mais gostoso?
Documentário "O Mineiro e o Queijo" - Helvécio Ratton
(http://www.omineiroeoqueijo.com.br - DVD à venda)
Extra: Pão de Queijo da Romilda, da Serra da Canastra
Documentário político e poético, O MINEIRO E O QUEIJO conta como a técnica de produção artesanal de queijo chegou a Minas no século XVIII, trazida por aventureiros portugueses em busca de ouro. Hoje, quase 30 mil famílias vivem da produção do queijo artesanal em todo o estado.
O MINEIRO E O QUEIJO foi filmado nas belas paisagens do Serro, da serra da Canastra e do Alto Paranaíba, onde o queijo minas continua sendo produzido como há séculos atrás. Feito a partir do leite cru, como os melhores queijos da Europa, o queijo minas artesanal é um patrimônio ameaçado por leis anacrônicas e pelo lobby dos grandes laticínios. O MINEIRO E O QUEIJO coloca na tela as opiniões de produtores, pesquisadores e técnicos sobre o impasse em que está hoje o verdadeiro queijo minas.
Veja o filme, preserve o queijo, faça o pão de queijo!!!
Hoje o Queijo Canastra, feito com leite não pasteurizado,
é Patrimômio Imaterial de Minas Gerais
Para todos: Paulinho Moska "A Idade do Céu"
A Idade do Céu - Versão Paulinho Moska
Não somos mais
Que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só
Na idade do céu
Não somos o que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo
Com a idade do céu
Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
Não somos mais
Que um punhado de mar
Uma piada de Deus
Ou um capricho do sol
No jardim do céu
Não damos pé
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos um grão de sal
No mar do céu
Calma
Tudo está em calma
Deixe que o beijo dure
Deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade
Que a idade do céu
A mesma idade
Que a idade do céu
Para Derliane: Jorge Drexler "La Edad Del Cielo"
La Edad del Cielo
No somos más
que una gota de luz,
una estrella fugaz,
una chispa, tan sólo,
en la edad del cielo.
No somos lo
que quisiéramos ser,
solo un breve latir
en un silencio antiguo
con la edad del cielo.
Calma,
todo está en calma,
deja que el beso dure,
deja que el tiempo cure,
deja que el alma
tenga la misma edad
que la edad del cielo.
No somos más
que un puñado de mar,
una broma de Dios,
un capricho del Sol
del jardín del cielo.
No damos pie
entre tanto tic tac,
entre tanto Big Bang,
sólo un grano de sal
en el mar del cielo.
(ESTRIBILLO)
que una gota de luz,
una estrella fugaz,
una chispa, tan sólo,
en la edad del cielo.
No somos lo
que quisiéramos ser,
solo un breve latir
en un silencio antiguo
con la edad del cielo.
Calma,
todo está en calma,
deja que el beso dure,
deja que el tiempo cure,
deja que el alma
tenga la misma edad
que la edad del cielo.
No somos más
que un puñado de mar,
una broma de Dios,
un capricho del Sol
del jardín del cielo.
No damos pie
entre tanto tic tac,
entre tanto Big Bang,
sólo un grano de sal
en el mar del cielo.
(ESTRIBILLO)
sábado, 15 de agosto de 2015
Enterrem meu Coração na Curva do Rio
Meu pai Oscar adorava faroestes e amava literatura. Clássica. Um dos seus livros favoritos era "Enterrem meu coração na curva do rio", com um índio americano na capa. Sempre achei que era um livro de mocinho e bandido à moda de Hollywood.
Anos depois descobri que o livro de Dee Brown narra o massacre das nações indígenas norte-americanas do ponto de vista dos índios e é considerado um dos pioneiros em Ecologia. E o título ? Eu acho maravilhoso (em inglês: Bury my Heart at Wounded Knee")
Desde o início do tratamento da Leuka já recebi quatro transfusões de sangue, provenientes de um serviço privado e recebi no Hospital a tradicional visita de uma captadora de doações. Um doce.
Como trabalho em uma empresa onde predominam pessoas jovens, saudáveis e generosas, motivei a realização de uma campanha interna de doação em prol de todos os pacientes que necessitem deste serviço. Não desejava apenas repor as bolsas/bençãos recebidas. Dra. Eliane Lustosa abençoou o projeto.
Hoje recebi a informação de que 5 colegas já doaram e há mais a caminho. Enviei para a Gabriela do nosso Setor de Relacionamento uma mensagem a ser enviada a cada um dos doadores:
"Querida/o _______,
Minha Hemoglobina baixou para 8,9 e eu estava muito fraca.
Nunca esquecerei a primeira transfusão que recebi.
Literalmente, a vida vai pingando devagarzinho, gota a gota.
Eu recebi minhas quatro transfusões agradecendo e orando para os meus doadores.
Mas não gostaria que as doações fossem apenas por mim e para mim.
Muitos também precisam.
Até que eu possa te abraçar pessoalmente, minha gratidão em nome de todos nós."
Pretendo também entregar a cada um pessoalmente uma cópia do livro do Dee Brown. Acho linda a analogia das nossas veias com os rios da Terra.
PS: E tem o filme...
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Um certo caderninho
Este post é sobre um certo caderninho de notas comprado durante a minha primeira viagem a Paris, onde leio Maio/2013. A minha livraria favorita é a Shakespeare and Company e fica ao lado da Notre Dame, como eles mesmos indicam no site.
A primeira livraria com este nome foi aberta por Sylvia Beach em 19 de novembro de 1919 (pós-guerra), mas teve vários endereços, sempre Rive Gauche. Durante os anos 20 era um point de escritores e expatriados (como diria a mãe de uma amiga, todos cachaceiros). Gente como Ezra Pound, Ernest Hemingway, James Joyce e Ford Madox Ford.
Foi fechada nos anos 40, durante a Ocupação Alemã, e nunca reabriu.
A segunda loja está situada na Rue de La Bûcherie, 37, no 5˜eme. Foi aberta em 1951 por George Whitman com outra denominação, mudando para Shakespeare and Company em 1964, em homenagem a Sylvia Beach. É um "complexo"de livraria, sebo e sala para leituras de escritores, sendo especializada em livros em inglês!!! Ela fez figuração em dois dos meus filmes favoritos:
- Before Sunset, do Richard Linklater (Antes do Amanhecer com Ethan Hawke e Julie Delpy)
- Midnight in Paris, do Woody Allen.
Tudo isto é para contar que o meu caderninho de notas estava guardadinho esperando as notas que farei para alimentar o blog.
Visitem:
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Primeira Carta
Querida Leuka,
No dia 29 de Julho de 2015 pulamos juntas em um bote de rafting. Sem remos, que seriam mesmo inúteis, uma vez que não sabemos usar. Sem mapa e sem GPS. Quando imagino nossa corredeira, penso em uma casquinha de noz no turbilhão de Foz do Iguaçu.
A princípio me pareceu que estávamos sós neste bote. Hoje vejo que nunca tivemos tanta companhia.
Temos família, amigos, sangha, colegas médicos, companheiros de trabalho, cuidadores, pessoas. E temos uma à outra.
Neste blog pretendo descrever, para compartilharmos com nossos queridos, os perigos, a adrenalina e as aventuras da viagem.
PS: Recebi da minha amiga Cleu uma imagem representando a minha casquinha de noz. Resolvi compartilhar com vcs.
No dia 29 de Julho de 2015 pulamos juntas em um bote de rafting. Sem remos, que seriam mesmo inúteis, uma vez que não sabemos usar. Sem mapa e sem GPS. Quando imagino nossa corredeira, penso em uma casquinha de noz no turbilhão de Foz do Iguaçu.
A princípio me pareceu que estávamos sós neste bote. Hoje vejo que nunca tivemos tanta companhia.
Temos família, amigos, sangha, colegas médicos, companheiros de trabalho, cuidadores, pessoas. E temos uma à outra.
Neste blog pretendo descrever, para compartilharmos com nossos queridos, os perigos, a adrenalina e as aventuras da viagem.
PS: Recebi da minha amiga Cleu uma imagem representando a minha casquinha de noz. Resolvi compartilhar com vcs.
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